RODRIGO DE CASTRO: A Ordem Sensível
VANDA KLABIN, curadora de arte 2026 | GALERIA PATRICIA COSTA RJ
A exposição de Rodrigo de Castro apresenta uma seleção de sua produção mais recente e explora a articulação espacial da geometria e da cor. A relação fluida entre os campos cromáticos e a ordenação geométrica rigorosa do espaço constitui um campo permanente de investigação do artista. Sua gramática pictórica, construída ao longo de décadas de atividade contínua, transformou-se em um fértil território de pesquisa, no qual a cor não cumpre função descritiva nem decorativa: ela é o próprio agente estruturante da obra. Cada superfície resulta de um jogo rigoroso de derivações geométricas, em que planos, linhas e áreas cromáticas são dispostos segundo uma lógica que se afasta deliberadamente da comodidade da simetria e dos esquemas matemáticos preestabelecidos.
Mineiro de Belo Horizonte e radicado em São Paulo, Rodrigo de Castro formulou um vocabulário visual próprio, herdeiro das tradições construtivas brasileiras, sem jamais se submeter a filiações estritas. Sua obra dialoga com a economia formal do legado construtivista, mas opera de modo autônomo, em uma temporalidade que lhe é peculiar, atenta à manipulação sensível dos meios plásticos que elegeu. Cores e estruturas geométricas constituem o centro gravitacional de sua produção artística. Seus acordes cromáticos irradiam uma singular combinação que inunda o nosso olhar.
As figuras geométricas comparecem como unidades elementares de sua sintaxe, mas são submetidos a assimetrias sutis que desestabilizam a leitura previsível da grade. Nenhuma forma se destaca a ponto de se converter em figura sobre um fundo, e nenhum plano se retrai a ponto de se tornar mero suporte. Cada área cromática pulsa com intensidade equivalente, e é dessa equivalência tensa que emerge o ritmo da construção. O rigor compositivo não anula a emoção estética: ao contrário, é precisamente ele que a induz e a torna possível. Como afirma o artista, estabelece-se um diálogo entre as áreas de cor e suas proporções.
A cor é tratada por suas qualidades visuais intrínsecas, sem recurso a tonalismos ou modulações ilusionistas. As sucessivas camadas de tinta, aplicadas em pinceladas leves e sobrepostas, conferem às superfícies uma densidade material que o olhar percebe antes mesmo de identificar a geometria que as organiza. A predominância das cores primárias — vermelho, azul e amarelo — alterna-se com a presença das não cores — preto, cinza e branco — e com trabalhos em que apenas pequenos pontos cromáticos interrompem a extensão da superfície. Dessas variações de luminosidade e contraste nascem infinitas possibilidades de ordenação do espaço.
Sua cartografia transita entre a pintura e a escultura, e, nessa passagem, o mesmo pensamento se reformula em outra chave. Quando a linha abandona o plano e se inscreve no espaço tridimensional, as operações que caracterizam sua linguagem permanecem reconhecíveis, agora submetidas à gravidade, ao peso e à respiração do entorno. Há entre os dois registros uma continuidade estrutural, como se o artista percorresse um mesmo problema por caminhos distintos, sem hierarquia entre eles.
As esculturas não constituem uma ruptura com a pintura, mas seu desdobramento. São trabalhos concebidos por um pintor que deseja compreender o comportamento da cor quando ela abandona a superfície frontal e passa a ocupar o espaço. As diferentes faces das estruturas recebem a incidência variável da luz, criando tonalidades e movimentos que não podem ser apreendidos de um único ponto de vista. Essa passagem do plano para o espaço amplia as possibilidades de seu vocabulário e traz maior elasticidade ao seu repertório visual. A geometria deixa de ser apenas uma organização interna e transforma-se em presença física. As linhas tornam-se limites materiais; os campos cromáticos convertem-se em volumes; os intervalos passam a incorporar o vazio ao redor. A escultura estabelece um diálogo com o ambiente e modifica a área que ocupa, criando zonas de concentração e expansão que reorganizam a experiência espacial.
O artista desenvolve uma meticulosa ordenação espacial por meio de estruturas coloridas. Na transição da cor do quadro para o espaço, revela-se sua vontade de avançar da superfície bidimensional da tela para uma condição de tridimensionalidade. Ele se mantém fiel às questões centrais de sua obra, ao mesmo tempo que enfrenta novos desafios formais. Reativa o fluxo cromático em outro suporte e constrói volumes modulados por variações de cor, simetrias e assimetrias: uma arquitetura de elementos geométricos com combinações visuais surpreendentes. Convém observar que essa obra se construiu na vizinhança de um importante legado da escultura brasileira, do qual o artista se aproximou por deslocamento, e não por repetição.
Nos trabalhos recentes, o artista aprofunda a investigação dos campos cromáticos e do jogo de derivações geométricas que atravessa toda a sua trajetória, revelando domínio dos meios que utiliza. Um vaivém poético que instaura uma silenciosa geometria e, ao mesmo tempo, deixa entrever uma natureza inquieta, instaurando um novo campo de trabalho. Seu repertório é deliberadamente preciso: planos, linhas, proporções e cores são articulados até alcançarem um ponto de equilíbrio. Esse equilíbrio, contudo, não deve ser entendido como estabilidade definitiva. Há sempre uma força latente que ameaça deslocar a composição, alterar as hierarquias ou expandir a cor para fora de seus limites.
São construções visuais que dispensam o efeito e a retórica e se oferecem ao olhar em sua evidência imediata, exigindo, entretanto, um tempo de permanência. Nesse pensamento disciplinado e livre, Rodrigo de Castro dinamiza sua contribuição para a nossa cultura, reafirma a potência silenciosa de uma obra que faz da ordem um instrumento de sensibilidade e abre novas possibilidades para a presença da pintura no mundo contemporâneo.
140 x 250 cm. Rodrigo de Castro. Óleo sobre tela
