ADRIANO MANGIAVACCHI: PINTAR É PRECISO
POR VANDA KLABIN - abril, 2026
Adriano Mangiavacchi nasceu em Roma, onde iniciou sua formação artística na Escola Artifici, e depois na Academia de Brera, em Milão. Na década de 1970, imigrou para o Brasil e decidiu fixar residência no Rio de Janeiro para trabalhar como engenheiro industrial na fábrica de automóveis italianos Fiat e Alfa Romeo. Nesse período, passou a frequentar o ateliê do artista Luiz Aquila em Petrópolis para iniciar um curso de pintura e, em seguida, as aulas do Parque Lage. Suas obras iniciais, à primeira vista, parecem abstratas, mas são constituídas a partir de um léxico visual que tem a presença de um expressionismo de âmbito figurativo, derivado da absorção das linguagens vanguardistas que estavam presentes no seu aprendizado europeu.
Suas afinidades pictóricas com o artista italiano Emilio Vedova, representante italiano da action painting, encontram referências no seu vocabulário artístico, assim como verificamos ressonâncias do figurativismo do artista italiano Mario Sironi, pertencente ao movimento Novecento Italiano e mais adiante, Kenneth Noland, Willem de Kooning, Richard Long, Robert e Sonia Delaunay, entre outros.
Sua prática artística se expande em elaborações plurais que se desdobram entre a figuração e a abstração. Uma multiplicidade de cores e formas estão sempre presentes, formando uma gramática própria e um repertório que sempre se renova no desdobramento de sua ampla gestualidade, fluida e abstrata. No seu itinerário estético, a linguagem da pintura é o eixo condutor do fluxo poético de seus trabalhos. O artista desenvolveu uma linguagem pictórica baseada na investigação de campos cromáticos e na problematização do espaço. A cor é o elemento fundamental de sua trajetória, sempre construindo novos direcionamentos.
No conjunto do seu pensamento pictórico, o artista utiliza um jogo composicional presente na natureza, e a paisagem urbana torna-se um tema recorrente em seus trabalhos. Mais adiante, as cores vigorosas e os elementos geométricos estarão bastante visíveis no seu horizonte visual. Essa importância está ancorada na sua afirmativa: “a cor é o meu mundo“ e são realmente as combinações cromáticas que dinamizam as suas estruturas compositivas.
Os muros da cidade e os emblemas de uma desordem de cunho político ganharam uma combinatória através de diferenciadas intervenções plásticas em suas obras, resultando em uma série de fotografias, que tinha o antagônico cenário urbano como ateliê. Uma construção de narrativas contra o regime estabelecido, que remete aos belos trabalhos do artista francês Raymond Hains, feita de momentos e de urgências. Uma verdadeira desconstrução sistemática do mundo ao seu redor, pois tudo que estava escrito ou desenhado à deriva nos muros urbanos, era apropriado pela fotografia para criar um panorama da situação. Um significante registro materializado em uma nova estrutura discursiva.
O conjunto de aquarelas e a série pinturas, cuja execução foi inspirada nas aquarelas, são os elementos dinamizadores dessa nova exposição de Adriano Mangiavacchi. Apontam para um novo campo de investigação e de ambivalências, provocadas pela luminosidade das cores, criando condições adversas de percepção. As sutis variações cromáticas se mesclam uma dentro das outras, guardam uma relação entre si e apresentam, ao mesmo tempo, uma liberdade de gestos e desdobramentos de formas e planos de cores que se erguem através das tintas, seja na superfície da tela ou do papel, em zonas interligadas. O artista utiliza técnicas diferenciadas, mas sempre potencializando o cromatismo, seja pela saturação ou acumulação; pela urgência ou pelo imediatismo; ou pelo próprio jogo de luz e sombra.
Mangiavacchi demarca uma constelação de acontecimentos plásticos através de uma incessante atmosfera cromática, repleta de uma delicada e surpreendente luminosidade. Inesperadas, congestionadas, exultantes ou desconcertantes, essas obras nos confrontam com seus contrastes de luz, evocando uma vibração, uma pulsação, um olhar sem foco, com variados graus de intensidade e precisão. Uma sensação de viver a experiência da pintura, como uma formação cósmica de massas coloridas, que irradiam um imenso prazer estético. Allegro vivace.














