Ricardo Stambowsky: Encontros Improváveis
Ricardo Stambowsky tem um olhar eclético e plural, que encontra ressonâncias no seu modo de perceber e experimentar o mundo ao seu redor. Na sua inquietação criativa, surgiu um continente de trabalho: mergulhou em um novo universo ao explorar particularmente uma gama impressionante de imagens, utilizando um processo de recorte e colagem. Criou um território repleto de ambiguidades, um interlúdio lírico fundamentado em fragmentos díspares que adquirem um fraseado particular pela fusão de seus elementos.
A colagem é uma apreensão da realidade que incorpora o que está ao alcance da mão, ao capturar uma imagem que nos circunda e transformar esses fragmentos heterogêneos, que perdem seus atributos e seu contexto original. A partir daí, tornam-se narrativas em novas representações. É um jogo lúdico de cores e formas, uma fusão plástica que nos traz a vertigem pelos deslocamentos preceptivos e nos remete à arte pop. Sofisticados e intrigantes, são agitados planos de cor com uma fervura pelas opções cromáticas.
A técnica moderna da colagem foi utilizada no cubismo, sobretudo por Georges Braque e Pablo Picasso, por volta de 1911. Braque comprou em Avignon um rolo de papel de parede estampado para aplicá-lo não nas paredes, mas sobre a superfície de uma tela. Esse procedimento artístico foi adotado pelos surrealistas, pelos dadaístas e mais tarde pelos artistas norte-americanos como Robert Rauschenberg e Jasper Johns, entre muitos outros.
O artista parte de um novo vocabulário estético que orienta e determina as suas escolhas pessoais que também irão compor as suas infinitas colagens. Instaura uma dinâmica de formas e cores, um verdadeiro mosaico de elementos que estão presentes no seu imaginário. Recortar e colar passou a ser um procedimento integrado ao seu cotidiano, ao transformar fragmentos heterogêneos, encontrados em antigas revistas, agora recortados, sobrepostos ou justapostos em uma cartolina tripla, até serem transformados em uma totalidade unitária, criando uma iconografia. Existe um tempo de idílio com a imagem recortada, como um objeto de desejo que remete a lembranças familiares e vão se alinhar novamente em uma ordem imprevisível ou em desordem com a sua trajetória lógica, pois adquirem nova identidade.
Esses fragmentos dependem do acaso e estão fora da sua narrativa original. O artista remixa os diferenciados elementos em outros códigos de informações visuais, gerando uma nova composição. Essa união inesperada com outras imagens recortadas protagoniza um inesperado encontro poético ao fundir uma imagem com a outra, surgindo uma nova unidade com seu significado próprio.
Ricardo resgata a beleza do detalhe, cria imagens ambivalentes através de encontros casuais entre o passado e o presente, agora com diferenciados horizontes de significação.
Na afirmativa de Andy Warhol, “o tempo muda as coisas, mas na verdade é você que tem de mudá-las”.
Em um universo saturado de imagens, essa união inesperada ou esse jogo amoroso de encontros híbridos adquire existência própria, pois os fragmentos são integrados pelo artista através da sua incessante ação de recortes, um contraponto com a impermanência e as assimetrias do mundo contemporâneo. Nada mais atual.
VANDA KLABIN curadora de arte — abril 2026
Galeria Patricia Costa — RJ
