SOBR PINTURA – ALBERTO SARAIVA
O que é pintura? Matisse dizia que um pintor, ao responder essa pergunta, se expunha a vários perigos – um risco do qual Alberto Saraiva não fugiu. Sobre pintura é um tratado pictórico contemporâneo que atua sobre a tradição da pintura e a formação da imagem no Ocidente: cor, forma, tinta, linha, luz, imagem, tempo, perspectiva, sensação e razão sobre a superfície bidimensional.
No conjunto de obras de Saraiva, o fascínio exercido pelas nuances vibrantes apresenta logo, à nossa percepção, que outro tempo é necessário para a fruição. A antecipação das cores sobre o todo carrega consigo a velocidade da luz que lhe dá existência. O vigor que o pintor manauara imprimiu à paleta estende o caminho para alcançarmos cada paisagem, de modo que o gênero pictórico não tem mais nem menos importância que as cores que o constituem.
Em sua pintura, não há hierarquia de valor entre os elementos. Todos são fundamentais para a sensação. É esse gesto que nos faz prescindir do senso comum sobre a paisagem para mergulhar tanto no matiz arbitrário, que não se intimida em percorrer os pólos do círculo cromático, quanto nos cenários amazônicos e cariocas apontados pelos respectivos títulos. Fora da dicotomia entre o real e a ficção, Saraiva opera em outro escopo, onde a abstração do tempo cronológico não é dissimulada para a sociabilidade.
A paisagem, nesse outro tempo, chamado de oportuno pelo artista, nunca é livre de memórias e esperanças. Em cada obra, essa elucidação também se faz presente na harmonia que recusa à unicidade e à estabilidade: sua pintura é construída por partes, com centros de gravidade coexistentes, que disputam e desorientam o espectador ao tensionarem a perspectiva clássica que tanto educou o olhar ocidental. As áreas da composição são articuladas pelas manchas mais realistas e pelos elementos gráficos, pelos objetos mais ordinários que avizinham o pintor e pelas referências artísticas que o formaram – em especial, a de sua mestra Katie van Scherpenberg que, por sua vez, prosseguiu com o legado de Oskar Kokoschka.
Voltemos a Matisse. Quando o pintor francês se arriscou a lançar suas ideias sobre pintura, afirmou que o quadro é constituído pelo estado de condensação das sensações e não pelas sensações fugidias. A metafísica pictórica de Alberto Saraiva supera as dimensões espaço-temporais ordinárias com o amor: energia base e motivo que estrutura sua obra.
Daniele Machado
Curadora
