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Paisagens Suburbanas – Gilvan Nunes

29 MARÇO a 20 ABRIL / 2017

No final dos anos 80 Gilvan Nunes começou sua formação artística na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

A EAV havia se tornado uma referência nacional da reação à arte conceitual, cuja ênfase na ideia, em detrimento do fazer manual, era internacionalmente considerada o maior obstáculo para a retomada da pintura como meio artístico hegemônico.

Marcada por tal contexto, a pintura de Gilvan Nunes, no entanto, não se restringiu à voga consagratória, tanto discursiva quanto prática, do fazer e do prazer proporcionado por este meio ou ofício ancestral da visualidade humana. Durante anos as transformações de seu trabalho resultaram da inquietação experimental que levou-o a expandir sua pintura para além do campo dos limites pictóricos  convencionalmente estabelecidos.

Ainda que a produção de Gilvan tenha por fio condutor permanente a pintura, sua trajetória foi sendo processualmente trilhada sobre as tênues fronteiras que historicamente especificavam os diversos ofícios (pintura, escultura, tapeçaria, cerâmica) cujos limites, atualmente esgarçados, persistem com base numa equivalência terminológica infundada: a que substitui a divisão das artes por técnicas, por sua divisão em linguagens.

Até chegar à sua pintura atual de paisagens rurais e urbanas, a obra do artista passou por muitas transformações, algumas delas, essenciais à sua experimentação.

Nesse sentido, destacamos as obras do período em que ele se apropriava de telas acadêmicas, de autoria ignorada, compradas em brechós, sobre as quais pintava, com rolos entintados, padronagens florais brancas destinadas originalmente à decoração de paredes. Também são dignas de nota as grandes pinturas de madeira crua sobre as quais o artista superpunha formas em relevo recortadas na mesma espessura do suporte, entintadas de preto como num clichê. Finalmente, Gilvan passou a encomendar suas pinturas a terceiros, contratados para pintar motivos e cenas publicadas em livros, revistas e anúncios de publicidade por ele escolhidas.

Somente após quase três décadas de trabalho, o artista afastou-se da experimentação voltada para a expansão do campo pictórico ao redirecioná-la para a paisagem, gênero pictórico consagrado desde a Renascença.

Ao passar a produzir pinturas totalmente artesanais (tinta sobre tela), Gilvan não abandonou a inquietação produtiva e experimental que atravessara o conjunto de seu trabalho. Suas obras recentes, como vimos, podem ser definidas, logo à primeira vista, de um ponto de vista temático, que se subdivide em dois subtemas, um de cenas rurais e outro de cenas urbanas.

No entanto, ao observarmos a feitura desses dois tipos de paisagem pelo artista, veremos que eles não diferem somente quanto aos subtemas (paisagem urbana e paisagem rural), mas, sobretudo, pelo tratamento pictórico específico dado a cada um deles. Enquanto suas cenas rurais são de visível fatura expressionista, remetendo-nos às possibilidades pictóricas  instauradas no passado, as paisagens urbanas de Gilvan são de fatura totalmente oposta. Pintadas sem qualquer empastamento, com base na aplicação de grids que modulam tanto a pintura quanto as cidades que desta resultam, enfatizam que para o artista a expressão visual de seu pensamento é indissociável do sentido poético que qualifica a sua obra.

 

                                                                                     Fernando Cocchiarale

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