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Cláudia Porto – Atravessando o espelho

11 SETEMBRO a 28 SETEMBRO / 2017

Cláudia Porto – Atravessando o espelho

Cláudia Porto pinta perspectivas urbanas em individual na Galeria Patricia Costa.

Com curadoria de Marisa Flórido, artista apresenta pinturas com olhar muito próprio sobre lugares e não-lugares de cidades, como Berlim, Rio, Belém, São Paulo, Paris

Inspirada em paisagens urbanas, a artista Cláudia Porto propõe um passeio pelo mundo em sua exposição individual, Cláudia Porto – Atravessando o Espelho, de 11 a 28 de setembro, na Galeria Patricia Costa, em Copacabana. Com curadoria de Marisa Flórido, a mostra faz parte da programação do CIGA – Circuito Integrado das Galerias de Arte, e reúne 15 pinturas inéditas, em pequenas e grandes dimensões, produzidas entre 2013 e 2017.

É possível reconhecer em parte cidades como Belém, Berlim, Barcelona, Londres, Rio de Janeiro, Paris e Punta del Este. Pontes, rodovias, esquinas e diferentes pontos de vistas são encontrados em suas pinturas, como formas reconhecíveis e estrutura de uma ficção. O público, o entre lugares, passagens que são de todos e de ninguém ao mesmo tempo estão em foco. “É um olhar sobre o urbano, o construído e pontos de vistas, formando um imaginário em matéria de pensamento e pintura”, comenta a artista.

Cláudia constrói repertório ainda observando filmes, editoriais de revistas, livros, fotografias, desenhos de sua autoria, ou não, e outras fontes, lugares vividos, como Belém, onde nasceu, e Rio de Janeiro, onde vive desde 2009. “Na pintura que realizo, as perspectivas urbanas, a cor e as soluções pertinentes ao processo importam mais do que corresponder a um projeto de imagem, ou tema anterior”, completa.

As “cidades visíveis” de Cláudia têm personalidade. Formas geométricas, rigor no tratamento da pintura, pesquisas e imaginação participam do contexto do trabalho poético, como um conjunto de decisões tomadas. As cores, tons da tinta acrílica, esmalte, óleo, automotivas ou náuticas, dão às paisagens uma identidade mais gráfica, atmosfera de um tempo presente, ou quase futuro.

Trabalho autoral, aparentemente minimalista, é de fato, pleno de detalhes, e os títulos são pensados a favor da elaboração também. Cláudia trabalha em várias telas ao mesmo tempo e propõe um passeio com o espectador. “É um convite para o olhar e deslocar, seguir adiante”, conta a artista.

“ … são paisagens de cidades, mas de pontos de vista deslocáveis e por vezes múltiplos em um só quadro: de quem caminha, de quem voa, de quem imagina, de quem junta os fragmentos díspares, de quem os estilhaça, de quem os vê pelas telas midiáticas, etc.” (Marisa Flórido – curadora)

 

Sobre espelhos e fantasmas
(texto de Marisa Flórido – curadora)

Como atravessar uma tela, um espelho, um plano? Como transitar entre pinturas, das quais cidades parecem emergir ou soçobrar? Como habitar essas telas-mundos que se oferecem em perspectivas fracionadas, em planos que insinuam e negam a terceira dimensão? Planos de cor em tensão, grafismos geométricos, rebatimentos: nas cidades de Cláudia Porto flutuam horizontes incertos, múltiplos e deslocáveis, como se vistos por quem, a um só tempo, caminha, sobrevoa, salta, vagueia. Suas pinturas se formam a partir de fragmentos colhidos da memória e dos afetos, do repertório das imagens que chegam pelas janelas das mídias, das páginas de um livro, da imaginação de lugares ainda por vir, de lugares que nunca foram, da fabulação dos espelhos.  Por vezes, acreditamos reconhecer nelas uma ponte, um edifício célebre, uma esquina de toda e nenhuma cidade, de todo e nenhum lugar: São Paulo, Belém, Barcelona, Rio, Delft refletida em plácidas águas… Skylines ambiguamente estranhos e familiares: lá estão uma melancolia Vermeer, uma solidão Hopper, uma Presença que não retorna, uma piazza De Chirico.

Poderíamos talvez contar a história da pintura e de suas paisagens pelos deslocamentos do horizonte, essa invenção tão humana e metafísica, que recolheu as fugas dos espaços à altura do olhar, que suspendeu o tempo em promessas e destinos. Dúbia condição do espectador da pintura: afastado da cena, mas projetando nela seu lugar.  Um lugar designado pela reflexividade entre aquele ponto de fuga da perspectiva e o olho que o mirava.  Das equivalências e desencontros entre ponto de fuga e ponto de vista, de sua supressão na abstração moderna, da superfície do espelho que nos prometia reflexo e face e a opacidade intransitável de coisa que o plano nos devolvia, deslocaram-se as disposições do espectador (diante, distante, ausente ou dentro da obra)…  Aos lugares assinalados ao homem pela arte, sempre assombraram seus desvios e abandonos.

Atravessando o espelho, intitula a exposição e um de seus trabalhos. De Van Eyck a Velázquez, o espelho se tornaria um elemento pictórico recorrente: ponto nodal para o qual convergem o espaço ilusório da arte, o espaço reflexivo da representação, o espaço perceptivo da superfície material, o espaço exterior que acolhe a tela e aquele que a contempla. Focos intensivos que interrogam a pintura, seu funcionamento, sua possibilidade, sua ontologia.  O que é um quadro?

O espelho que a artista nos devolve é todavia baço. O que resta são vestígios de um homem ausente? Os gatilhos da memória (suas pontes e casas) não nos esclarecem sobre o que são, onde estão, ao quê ou a quem se destinam: pertencem aos domínios ambíguos dos espelhos, essa “heterotopia da ilusão”, como definiu Foucault, os espelhos e as artes da ficção [Outros espaços, 1984].  Espaços da alteridade, de múltiplas camadas, nas heterotopias da ilusão não se está nem aqui nem lá.  Lugar sem lugar, no espelho descobrimos que temos uma imagem que não nos pertence. Entre a percepção da imagem e nosso reconhecimento nela, há um intervalo em que somos o outro fantasmático, o espectro que nos devolve o olhar e nos faz tão visíveis quanto ausentes.  O espelho transforma o lugar que ocupamos diante dele em simultaneamente real (já que inserido e relacionado ao espaço que o envolve) e irreal (já que para percebê-lo há que se atravessar sua superfície): um estar sem estar em sua virtualidade matérica.

Cidades abandonadas ou ainda a povoar, cada quadro de Cláudia Porto é composto de frações e se constitui como uma fração entre outras no espaço expositivo em que é instalado.  O espectador, em deslocamento entre elas, é instado a habitar o inabitável, a quebrar o espelho e juntar estilhaços e horizontes, dar-lhes (ou não) extensão e continuidade. A atravessar as telas, a tocar os extracampos invisíveis e imaginados dos espelhos e da pintura.  A ver sua ausência na obra em que foi posto. Cada pintura é sobretudo um entremundos, um inframundos, que desejamos e resistimos a habitar.

 

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